sábado, 14 de março de 2026

O Obelisco de João Labaki em Itu

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Ao atravessar os primeiros corredores do Cemitério Municipal de Itu, no interior paulista, meu marido logo chamou minha atenção para um túmulo singular. Suas inscrições, tão incomuns, lembravam hieróglifos misteriosos, como se guardassem segredos de outra época. Tomada pela curiosidade, percebi que aquele monumento, apesar de se destacar pela originalidade em meio às lápides convencionais, permanecia esquecido pelo olhar do público. Foi então que nasceu em mim o desejo de investigar sua história, acreditando que por trás de sua aparência enigmática poderia existir uma narrativa fascinante.

A história deste túmulo é uma crônica de imigração, fé e a construção de uma nova identidade no interior de São Paulo. Ao unir as inscrições da pedra com o contexto histórico de Itu em 1918, podemos reconstruir a trajetória de João M. Labaki.


A Jornada de Baabdath para Itu

João nasceu em 1887 na vila de Baabdath, situada na região de Monte Líbano. Naquela época, a região vivia sob o domínio do Império Otomano. A família Labaki é uma das linhagens mais tradicionais e antigas de Baabdath, conhecidos historicamente por serem cristãos maronitas e por sua forte veia empreendedora.
Como muitos jovens libaneses do final do século XIX, João cruzou o oceano em busca de oportunidades no "Eldorado" brasileiro. Ele chegou ao interior de São Paulo, estabelecendo-se em Itu, uma cidade que já possuía uma colônia árabe florescente dedicada ao comércio de tecidos e armarinhos.


O Monumento de Dupla Identidade

O túmulo, em formato de obelisco, não foi escolhido por acaso. Na simbologia funerária da época, o obelisco representa a "elevação da alma ao céu" e era um monumento comum entre famílias que alcançaram certa estabilidade financeira.


A Divisão do Texto

  • O Topo (Ancestralidade): As inscrições em árabe no obelisco servem como uma conexão eterna com a terra natal. Elas identificam João como Yuhanna (João em árabe) e reafirmam suas raízes em Baabdath. É uma mensagem para os seus pares e para a história de sua linhagem.
  • A Base (Integração): O texto em português usa a grafia da época ("fallecido", "Syria"). Ele marca a integração de João à sociedade brasileira. Ao citar a "Saudade de sua esposa", o monumento revela que ele não era apenas um imigrante, mas alguém que construiu laços familiares profundos no Brasil.


Inscrição no Obelisco

  • 1. Inscrição em Português (Base)
O texto em português é direto e fornece os dados biográficos:
"Aqui jaz os restos mortais de João M. Labaki. Nascido em Babdat, 1887. Monte Líbano, Syria. E fallecido nesta cidade em 4 de Março de 1918. Saudades de sua esposa."

Curiosidade histórica: Naquela época (1918), o Líbano ainda estava sob o domínio do Império Otomano ou sob transição, por isso era comum os imigrantes serem registrados como vindos da "Síria" ou "Monte Líbano".

  • 2. Inscrição em Árabe (Obelisco)
A parte superior é mais poética e religiosa. Embora a erosão da pedra dificulte a leitura de algumas palavras, ela segue o padrão das lápides cristãs libanesas da época:

Início: Geralmente começa com a frase "Fi hadha al-dari..." (Nesta morada...) ou uma invocação religiosa.
Identificação: Menciona o nome do falecido (Yuhanna, que é João em árabe) e a família Labaki.
Local de Origem: Confirma a vila de Baabdath (بعبدات), uma vila histórica na região de Metn, no Líbano.
Datas: As datas aparecem em algarismos arábicos orientais, correspondendo a ١٨٨٧ (1887) para o nascimento e ١٩١٨ (1918) para o falecimento.
Sentimento: O texto costuma terminar com um pedido de oração ou uma frase sobre a alma descansar em paz.

O Trágico Ano de 1918

João faleceu em 4 de março de 1918, com apenas 31 anos. Este detalhe é crucial para entender o contexto da época:

  • A Grande Guerra: O Líbano enfrentava uma fome devastadora durante a Primeira Guerra Mundial. João, no Brasil, provavelmente enviava recursos ou notícias para sua família no Oriente Médio, que vivia um dos períodos mais sombrios de sua história.
  • A Saúde Pública: Embora a famosa Gripe Espanhola tenha atingido o Brasil com força no segundo semestre de 1918, o início do ano já era marcado por desafios sanitários em cidades que cresciam rapidamente, como Itu. A morte prematura de um homem jovem como João sugere uma fatalidade que interrompeu uma vida de promessas.

O Legado Preservado

Hoje, o túmulo no Cemitério Municipal de Itu funciona como um documento histórico. Ele prova como a cidade foi moldada por mãos estrangeiras que adotaram o Brasil como pátria, sem nunca esquecer o alfabeto e as montanhas de onde vieram. O fato de a pedra ainda estar legível após mais de um século é um testamento ao cuidado da família e ao respeito da comunidade ituana por sua memória.

Nota Histórica: A vila de Baabdath, citada na lápide, é até hoje um ponto de referência para a genealogia libanesa no Brasil. Muitos descendentes de João e de seus parentes continuam a contribuir para a cultura e economia paulista.

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