Ary Aps

Quem caminha pela tradicional Vila Vianelo, em Jundiaí, certamente já cruzou com a Rua Tenente Ary Aps. Para a grande maioria das pessoas que transitam por ali diariamente, o nome gravado na placa de metal azul parece apenas mais uma singela e abstrata homenagem urbana. No entanto, por trás dessa denominação, esconde-se a trajetória de um homem cuja existência terrena foi curta, mas intensamente marcada pelo senso de dever, pela amizade e por uma contribuição imensurável para a identidade da nossa cidade e para a própria história da televisão brasileira. Detalhes cruciais sobre sua cronologia pareciam perdidos no tempo, mas uma recente e emocionante investigação feita por nosso blog traz luz definitiva a esse personagem inesquecível.

Em um trabalho de sensibilidade urbana e preservação da memória local, localizamos o túmulo do Tenente Ary Aps, que repousava quase esquecido. Gravadas no bronze de sua última morada, as datas revelam um homem que partiu no auge de sua juventude e vitalidade: Ary Aps nasceu em 8 de novembro de 1929 e faleceu tragicamente em 12 de outubro de 1962, com apenas 32 anos de idade. O achado preenche uma imensa lacuna biográfica e nos permite conectar sua linha do tempo aos fatos documentados pela história da cultura pop nacional.

Ary Aps pertenceu a uma geração que viu o estado de São Paulo se transformar através do asfalto. Jovem obstinado, ingressou nos quadros da segurança pública em uma era de transição, quando o policiamento das estradas paulistas ainda era vinculado ao Departamento de Estradas de Rodagem (DER). Dotado de um forte senso de liderança e preparo técnico, ele assumiu o comando do crucial Destacamento Anhanguera da Polícia Rodoviária, sediado exatamente em Jundiaí.

Foi justamente nessa posição estratégica que o destino do Tenente cruzou com a história da arte nacional. No final dos anos 1950, o cineasta Ary Fernandes idealizava um projeto audacioso: criar o primeiro seriado filmado em película para a televisão brasileira, focado no cotidiano e heroísmo das patrulhas rodoviárias. Conforme documentado pelo pesquisador Ícaro Picerni na dissertação de mestrado "Os fios e os rastros de O Vigilante Rodoviário" (PUC-SP), a busca pelo máximo realismo fez com que o ator protagonista, Carlos Miranda (o Inspetor Carlos), vivesse na pele a rotina real de um patrulheiro antes das filmagens começarem.

Para preparar o personagem, Carlos Miranda passou por um rigoroso treinamento de três meses na Escola da Polícia Rodoviária de Jundiaí, integralmente sob o comando e tutela do primeiro-tenente PM Ary Aps. Foi com o oficial jundiaiense que o "Vigilante" da TV aprendeu as leis das estradas, deveres da corporação, administração pública, a pilotar as pesadas motocicletas, portar armamentos e a própria hierarquia militar. Ary Aps não foi apenas um apoiador logístico; ele moldou o herói que o Brasil inteiro passaria a admirar.

Além de forjar o protagonista, o Tenente Ary Aps abriu as portas de Jundiaí para a produção, indicando locações, trechos de estradas, chácaras e sítios da região para as filmagens. O envolvimento era movido por puro orgulho de sua farda. O reconhecimento desse esforço mútuo ficou eternizado na história. Em sua biografia oficial, "Ary Fernandes: Sua Fascinante História" (Coleção Aplauso), o diretor relembra com profunda emoção que, no dia 29 de dezembro de 1961, após um dia exaustivo de gravações sob o sol, a equipe foi surpreendida na base jundiaiense com uma homenagem organizada pelo Tenente. Na ocasião, Ary Aps entregou em mãos ao diretor e aos atores um diploma oficial de honra ao mérito do 5º Destacamento. O criador da série registrou em suas memórias que guardou aquela honraria pelo resto da vida como uma "terna lembrança do saudoso amigo".

Infelizmente, a mesma pista que o Tenente Ary Aps patrulhou e ensinou a proteger testemunhou o seu fim precoce. Em seu livro de memórias, o diretor Ary Fernandes relata abertamente o doloroso desfecho: "Ele sofreu um acidente na pista e morreu no ano seguinte com apenas 32 anos". Ironicamente, a data de seu falecimento revelada na lápide encontrada por nossa reportagem — 12 de outubro de 1962 — coincide exatamente com o Dia da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, e com a celebração de exato um ano da estreia do seriado na TV Tupi.

Embora em registros afetivos posteriores de seus companheiros ele seja carinhosamente mencionado sob a patente de Coronel — uma justa e honrosa promoção pós-morte motivada por seus atos de bravura e tempo de serviço —, a fotografia em cerâmica preservada em seu túmulo eterniza para a posteridade a imagem de sua vibrante juventude: o olhar firme focado no horizonte e a farda do tempo em que era o jovem e dinâmico primeiro-tenente de Jundiaí.

Inscrita no metal de seu túmulo, a célebre passagem bíblica resume perfeitamente sua jornada abruptamente interrompida: "Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé". Graças ao resgate promovido por este blog, a rua da Vila Vianelo deixa de ser apenas uma coordenada geográfica e ganha alma. Ela volta a ser o tributo vivo a um herói real de carne, osso e coragem, que colocou Jundiaí no mapa da televisão brasileira e guardou nossas estradas com o próprio sangue.


Principal atividade ou função histórica: Polícia. Nascimento: 8 de novembro de 1929 Falecimento: 12 de outubro de 1962 Localização: Quadra - Cemitério Nossa Senhora do Desterro, Jundiaí.
Descrição do jazigo: Jazigo em granito com cruz e placa em bronze com a descrição "Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé" e foto colorizada.

(Pesquisa e imagens: Li Merlucci)





Galeria de imagens:
Diário da Noite Ano 1962.
Edição 11353.
Fonte: Memória.bn.gov.br
Diploma de HONRA AO MÉRITO conferido ao Ary Fernandes pelo Comandante Ary Aps.
Foto: www.vigilanterodoviario.com.br
Cena de O Vigilante Rodoviário com Carlos Miranda.
Fonte: observatoriodatv.com.br

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